Arte milenar

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Tatianna Cirinno é precursora na Charcutaria Natural, que une técnicas e processos para fins de preservação de carnes

Desde a infância, Tatianna Cirinno sempre admirou a forma que as mulheres cozinhavam no meio rural. Diferentemente de muitas profissionais que tiveram como inspiração a culinária das mães ou avós, sua influência veio do pai, embora fosse um cozinheiro de pequeno repertório e não cozinhasse profissionalmente. “Minha mãe não sabia cozinhar nada. Já meu pai, sujava cinco panelas pra fazer uma macarronada, criava um caos na cozinha, mas suas comidas eram maravilhosas. Ele ensinou o amor por cozinhar e o poder da comida afetiva para melhorar o astral de qualquer pessoa”, relembra.

Ainda que tivesse o gostinho pela gastronomia, Tatianna chegou a trabalhar em outras áreas, atuando como empresária e advogada ambiental. Mas, com o tempo, ficava cada vez mais difícil ignorar sua paixão pela gastronomia. “O direito não era mais suficiente para encher meu coração de alegria e me desafiar”, explica. Por isso, decidiu investir no que alegrava seu coração, entrando a fundo no ramo da Charcutaria Natural – ligado à preservação das carnes sem uso de refrigeração ou químicos, mas com muito mais sabor.

Além da paixão pelo universo das carnes, decidiu especializar-se na área ao perceber a enorme carência de informações verídicas sobre o assunto no Brasil. A fim de melhorar o cenário do conhecimento em relação à Charcutaria, ela mergulhou nos estudos e passou a produzir diversas pesquisas sobre o tema. “Tenho imenso prazer em disseminar a informação correta”.

Sua maior dificuldade foi, principalmente, a falta de confiança das pessoas em relação a uma charcutaria confeccionada totalmente livre de químicos. Além disso, percebendo que a charcutaria de modo geral não é muito fotogênica, participou de vários cursos de fotografia, sempre valorizando a beleza estética de seus produtos. Afinal, a apresentação é ponto central na hora de atrair os clientes.

O grande incentivo que recebeu veio, sobretudo, do renomado chef argentino Francis Mallmann, após realizar um serviço de consultoria e participar de diversos eventos com ele. “O Francis é um grande entusiasta da Charcutaria Natural, e ele conseguiu sentir toda a verdade e amor que tento transmitir em cada produto que faço”, explica. Foi, certamente, o empurrão que ela precisava para seguir em frente, sempre com o objetivo de fazer com que as pessoas se alimentem melhor, se emocionem e resgatem a tradição no seio de suas famílias.

Não à toa, Francis Mallmann está no topo da lista de suas maiores admirações dentro da gastronomia. “Com ele, percebi a profundidade quase insana que podemos ter no amor pela comida”. Outras grandes referências são Sauro Scarabotta, Fábio Flatschart, Marcelo Bolinha e a Taty, do Yaguara Ecológico.

Em um universo predominantemente masculino, ser uma mulher trabalhando com Charcutaria ajuda a romper com a lógica machista que ainda se faz bastante presente. Trabalhando com consultoria, em que é necessário estabelecer mudanças no estabelecimento para que o serviço seja efetivo, é comum receber um cliente que recuse imediatamente qualquer sugestão proposta por um conflito de ego. “É necessário muito profissionalismo para entender isso e não entrar no jogo. Já levei gritos na cara, potes jogados no chão e até colher quente no pescoço. Ou isso te fortalece ou te define. Eu nunca fui uma mulher fraca”.

Ainda assim, ela reconhece que a resistência por parte do público masculino está diminuindo ao longo dos anos. “São homens conservadores, muitos do meio rural, gastronômico e do churrasco. Com o passar do tempo, me honraram com respeito e admiração”, conta.

E quando o assunto é bolar novas receitas, o processo parte de um estudo aprofundado e períodos de reflexões, seguidos de momentos de inspiração para colocar a receita no papel. “Gosto de criar pensando na personalidade da pessoa que irá comer: o aroma primordial que vai sentir, todas as sensações que quero desencadear nela”. Seu desejo é maior do que apenas alimentar as pessoas: envolve, acima de tudo, provocar uma experiência gastronômica inesquecível. Por isso, as leituras e pesquisas sobre o tema são constantes e infinitas.

Em março de 2020, Tatianna lançou seu primeiro livro. Intitulado Charcutaria Antiga – Expedição Europa, a obra rendeu-lhe o prêmio Gourmand World Cookbook Awards do ano na categoria carnes, primeira vez em que o Brasil vence na categoria. Atualmente ela está trabalhando em seu segundo livro que, embora ainda em fase de projeção, tem tudo para repetir – e até extrapolar – o sucesso de seu precursor.


Instagram: @tatianna.cirinno

Foto destaque: Elizeo Garcia Junior

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