Na Cozinha da Helô

Na Cozinha da Helô

Heloisa Bacellar leva o amor por onde passa. Com muita técnica e criatividade, ela mostra que a chave da vida está na simplicidade.

Heloisa Bacellar é daquelas pessoas que não cansam de inventar moda, de pesquisar e preparar receitas. Não à toa, nosso bate-papo foi exatamente assim: uma mão no telefone e outra no fogão. Enquanto preparava o jantar, controlava o apito do fogão e organizava as coisas da casa, ela ainda conseguia direcionar sua atenção para conversar comigo de forma leve, carismática, espontânea e simpática. “Eu nunca fico numa coisa só. Enquanto eu tô fazendo uma coisa, tô pensando em outra. Eu sonho com receita, literalmente penso nisso o tempo inteiro”, conta.

Teve uma infância marcada pela gastronomia, colocando a mão na massa desde os seis anos. Pequena demais? Talvez alguns digam que sim. Mas achava lindo observar sua avó cozinhando e, com o tempo, pegou o gosto pela coisa. Pedia para ajudar em alguns preparos, se deliciava com o resultado, aprendia cada vez mais e o interesse crescia aumentava. “Quando eu tinha seis anos estava descascando abacaxi. Hoje até existe esse movimento de criança na cozinha, mas naquela época isso não era nada usual”, relembra. Virou amiga de todas as cozinheiras que trabalharam na casa de sua mãe, já que vivia na cozinha ao lado delas.

Hoje, aos 56, lembra com carinho da primeira receita que preparou sozinha: uma maionese caseira. “Eu fui me encantando, a cada dia fazia mais coisa. Achava o máximo ficar sentada na mesa escolhendo feijão, porque vinham com poeira, com terra”.

Na época do vestibular, já tinha total consciência de seu interesse pela cozinha. Porém, as possibilidades de cursos universitários eram pequenas, assim como aqueles que viajavam para o exterior para se especializar. Por isso, vinda de uma família de advogados e com prazer pela escrita, optou pela advocacia, “mas com aquela ideia na cabeça de que um dia eu iria para a França, estudar lá, porque era o que eu queria”.

Dito e feito. Após revezar entre os livros de Direito e os da culinária por 20 anos, Helô finalmente mudou-se para Paris, para profissionalizar-se na área escola de gastronomia mais renomada do mundo: Le Cordon Bleu. Fez tudo que lhe era oferecido: cozinha, confeitaria, panificação, e conquistou o Le Grand Diplôme de Cuisine e de Pâtisserie, em 1995.

Depois que retornou ao Brasil, fundou, em 1999, o Atelier Gourmand, em São Paulo, junto com a sócia Ana Paula de Moraes Rizkallah. “Eu inventei todo o modelo de uma escola completamente diferente, para pessoas que não necessariamente tinham interesse em trabalhar com comida, mas queriam aprender a fazer alguma coisa legal, passar um momento gostoso na cozinha”. Foi sócia durante seis anos, até diminuir o ritmo para cuidar da saúde.

Partiu para um novo projeto, mas não menos importante do que os anteriores. Dessa vez, ao invés de revezar entre o gosto pela escrita e o gosto pela gastronomia, resolveu unir o melhor dos dois mundos, e lançou o seu primeiro livro, Cozinhando Para Amigos. Não só traz um livro de receitas, mas também a cozinha como um modo de vida, amoroso e aconchegante. Depois disso, a vida alavancou: lançou o Cozinhando Para Amigos II, Bacalhau, Chocolate Todo Dia e Brasil à Mesa, além de publicar dois livros na França, Le Brésil à Table e Made in Brazil.

Há dois anos, investiu para além dos livros. Junto com a filha mais nova, criaram o site Na Cozinha da Helô. “Escrever um texto legal, explicando um monte de coisa sobre técnica, ingrediente, o vínculo daquela receita com a minha vida e sempre com fotos bem gulosas, que dessem realmente vontade de comer”, explica. Helô não fica limitada à receita. Ela gosta de contar história e dar um monte de dicas, grande diferencial de seu trabalho em relação a outros sites de gastronomia.

Dividindo suas experiências com o público, ela mostra que, mesmo que alguém nunca tenha entrado numa cozinha, ou simplesmente não possui um conhecimento de nível profissional, consegue reproduzir o que está sendo preparado. Sempre com muitos detalhes, ela traz receitas simples, do dia a dia, sem os grandes procedimentos feitos em restaurantes da alta gastronomia, indicando minuciosamente os pontos mais difíceis do preparo, como fazer para acertar e, acima de tudo, que a perfeição é coisa de segundo plano.

Passou anos falando para as pessoas: eu quero a vida real. “Uma comida gostosa, na linha de alma, coração. Não tem problema se der uma rachadinha, se ficar meio feio, o que interessa é que esteja super gostoso”. Isso é comfort food: uma coisa que é saborosa e cheia de amor. “Você alimenta o corpo, mas também o coração, a alma, e deixa mais feliz as pessoas que estão ao seu lado”.

Certamente, no começo, não foi fácil passar a ideia de simplicidade, alimentos orgânicos, naturais e comfort food para as pessoas. Foi pioneira no movimento, muito à frente de seu tempo, numa época que ninguém dava muita bola para isso. “As pessoas só estavam interessadas em fazer pratos cheios de coisa, e eu falava que não precisa ser chique para ser gostoso”, afirma.

Foi partindo dessas ideias que ela idealizou o Lá da Venda, na Vila Madalena, em São Paulo. O lugar é muito mais do que um restaurante. Nele, Helô valoriza a vida realmente como ela é. Queria algo que envolvesse sentimento, que pudesse proporcionar um ambiente que a pessoa tivesse uma relação gostosa com o outro. Criou, então, um tipo de comércio, um lugar em que a pessoa tem um pouco de tudo para a vida dela. “Eu queria que fosse um lugar alegre, colorido, tudo arrumadinho, bem feito, mas que essas simplicidade sempre falasse mais alto”. Inaugurado em 2009, o Lá da Venda é, de fato, a alma da Helô. Nele você encontra peças artesanais únicas, itens sustentáveis, de panela à toalha, de café à picolé. Os pratos são de dar água na boca, variando em opções com carne, ave, peixe, vegetarianos e saladas. Abraça todos os gostos!

Em seus trabalhos, ela deixa claro que o erro faz parte do aprendizado. Helô humaniza todo o processo. Um dia a torta pode ficar impecável. Mas no outro, pode rachar. E tudo bem. “Deixar as pessoas verem que comigo também dá errado talvez seja uma das formas que mais conquistei gente, para as pessoas verem que sou uma pessoa normal”.

Depois que obteve tantas conquistas, será que sobram planos para o futuro? Sempre! O que ela mais gosta é de levar para as pessoas queridas suas receitas deliciosas. “Eu sou uma pessoa que gosta de agradar, com coisas gostosas, que passam amor e carinho. Eu quero poder pensar nesse assunto cada vez mais, estudar, escrever muito. A minha vida é isso. Cozinhar, escrever, pensar. E fazer coisas gostosas”.


Instagram: @nacozinhadahelo

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Fotos: Ana Bacellar (@anaolbacellar) e Lucas Terribili

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Criadora e redatora do Mulheres na Gastronomia! Sou estudante do terceiro ano de jornalismo da Faculdade Cásper Líbero, em São Paulo. Embora não tenha muito sucesso em minhas experiências dentro da cozinha, tenho uma paixão imensa por saborear os melhores pratos e contar histórias. Então, nada melhor do que juntar essas paixões em um mesmo lugar, trazendo pautas diferentes e interessantes, sempre com muita diversidade e diálogo.



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